No século XX, mais precisamente no final da década de 60, jovens do Bronx, bairro de Nova York (EUA), restabeleceram esta forma de arte usando tintas spray. Para muitos, o grafite surgiu de forma paralela ao hip hop - cultura de periferia, originária dos guetos americanos, que une o RAP (música muito mais falada do que cantada), o "break" (dança robotizada) e o grafite (arte visual do movimento cultural). Nesse período, academias e escolas de arte começaram a crise em entrar e jovens artistas passaram a se interessar por novas linguagens. Com isso, teve início um movimento que dava crédito às manifestações artísticas fora dos espaços fechados e acadêmicos.
A rua, portanto, passou um ser o cenário perfeito para as pessoas manifestarem sua arte. Os artistas do grafite, também chamados de "writers" (escritores), costumavam escrever seus nomes em seus trabalhos ou chamar a atenção para problemas do governo ou questões sociais.
Essa manifestação começa surgir no Brasil já nos anos 50, com a introdução do spray. Segue pelos 60, passando pelos 70 e se consagrando como linguagem artística nos anos 80, conquistando seu espaço na mídia, chegando à Bienal, às manchetes de jornais e até as novelas de TV. Continua pelos anos 90 em diante em constante evolução. Prova disso é que os grafiteiros não param de ser chamados para aplicar seu talento em revistas, exposições em galerias e anúncios publicitários.




Exemplo disso, são Osgmeos, Gustavo e Otávio Pandolfo, que nasceram Cambuci, bairro da região central de São Paulo/SP. Em 2006, eles expuseram na Trienal de Milão e na Bienal de Havana. Eles começaram a desenhar aos 4 anos e, ainda na infância, ilustraram histórias inventadas por eles mesmos, com peixes e navios de guerra.
Na adolescência, os irmãos aderiram ao movimento hip hop. Começaram a fazer grafites e adotaram o codinome Osgemeos. Persistiram na prática da pintura dos muros de São Paulo até atigir uma linguagem própria e inovadora.
A marca visual inconfundível de Osgemeos surgiu no princípio dos anos 1990: grafites com homens e mulheres de pele amarela, largo tronco, pernas e braços delgados. São personagens com roupas coloridas, suspensos em cenários oníricos, em contraste com o cinza da arquitetura paulistana.
Esse elenco criado por eles foi transferido das paredes para os suportes de pintura e instalações. Tingido em spray e látex, a mesma técnica das ruas, o elenco criado pela dupla tornou-se famoso na cena internacional.
A partir de 1999, foram apresentadas obras da dupla em galerias, museus e espaços de Berlim, Hamburgo, Paris, Los Angeles e Nova York. Em agosto de 2006, montaram uma exposição na Fortes Vilaça, intitulada O peixe que comia estrelas cadentes, com pinturas sobre painéis de madeira. O conjunto se completava com uma grande instalação: um barco, dotado de movimentos mecânicos, luzes, música e dispositivos que permitem uma interação com a peça. Foi o primeiro trabalho da dupla com essas características, realizado para marcar a primeira individual no Brasil.


A gigantesca cabeça amarela em que se transformou o prédio da Galeria Fortes Vilaça foi um convite para que se ingresse no universo onírico dos grafiteiros Os Gêmeos (ou '- Outra de suas assinaturas), há tempos atrás. É que lá, fora do circuito de muros, pontes e viadutos paulistanos, o trabalho desses artistas - já reconhecido no exterior - alcança outro estado e outro público no Brasil.
Fernando Meirelles gostou tanto da experiência de trabalhar com Os Gêmeos, que os convidou para auxiliar na produção das animações para a série televisiva da Rede Globo, Cidade dos Homens. "A gente fez uma animação com ele. Foi um outro experimento", lembra Otávio. "A gente falou: vamos fazer uma brincadeira, vamos ver no que é que dá". Ainda por conta do trabalho para a Nike, Otávio e Gustavo passaram quatro meses viajando por sete países. Eles contam uma proposta da turnê - batizada de Brasil - era fazer uma festa brasileira em cada local visitado.
Em cada cidade, acontecia uma exposição com o trabalho dos grafiteiros e a exibição do filme Ginga. "Eles precisavam de artistas que representassem a nossa cultura através das artes plásticas ou das artes visuais", explica Gustavo.
Foi entre uma viagem e outra que surgiu uma proposta de desenhar um tênis especial para a marca. Os calçados, produzidos em edição limitada e lançados apenas nas cidades visitadas durante o tour organizado pela Nike, tiveram a parte traseira, a língua e a palmilha ilustradas pelos grafiteiros.
Traços inconfundíveis:
Parede de um estabelecimento no Centro de SP traz marca dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, Osgemeos
Além da Nike, podemos evidenciar o crescimento do grafite, também nas marcas de roupa, um como Ellus, que contratou 20 para colorir os artistas outdoors de sua campanha de inverno. E o inusitado é que, em vez de produzir os cartazes no estúdio, eles criaram ao vivo, nas ruas de várias cidades do país, exatamente como o grafite é feito. Outra grife que usou uma estética da "arte de rua" foi a Triton. A marca lançou no começo de 2009 um manifesto, uma campanha que E.U.A. O conceito foi o de contestação, justamente uma ideia que deu origem movimentos artísticos uma esses. Além de invadir anúncios, outdoors, páginas de revistas e internet, o grafite brasileiro é também produto de exportação. Entre os artistas destacam-se figuras conhecidas, como Onesto, Titi, Calma e os já citados osgemeos, que ganharam espaço em exposições e publicações internacionais.






